Eduardo deixou a vida, mas não a existência, afirma Roberto Rocha

O Senado homenageou nesta quinta-feira (13) o ex-governador de Pernambuco e ex-presidente do PSB, Eduardo Campos, morto em 13 de agosto do ano passado em um acidente de avião. Em quatro horas de sessão especial, senadores e autoridades presentes reverenciaram a memória de Eduardo Campos, lembrando sua personalidade alegre e motivadora, suas qualidades como gestor e sua capacidade política para conciliação. “Este é o sentido de estarmos reunidos aqui. Não apenas para prestar o merecido louvor a uma vida que nos inspira, mas o de tentar traduzir o que ainda hoje ela nos instiga,” afirmou o senador Roberto Rocha (PSB-MA), autor do requerimento para a realização da sessão.

Estiveram presentes os ex-senadores Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos, o ministro das Cidades, Gilberto Kassab, a secretária-executiva do Ministério da Ciência e Tecnologia, Emília Ribeiro, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), e o presidente da Fundação João Mangabeira e ex-governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB).

O senador Roberto Rocha lembrou o legado de Eduardo Campos, que, mesmo sendo neto do grande político Miguel Arraes, optou por criar uma trajetória própria, com a visão “não apenas de mudar o mundo, mas de saber mudar, com ele. Sem negar o passado, antes o valorizando e o reconhecendo.” Roberto Rocha também afirmou que se estivesse vivo, Eduardo seria a voz mais qualificada para fazer as pontes entre o país que somos e o país que almejamos ser. “Eduardo deixou a vida, mas não a existência. E a prova de que ele continua existindo é esse diálogo que persistimos mantendo com a inspiração de sua vida.”

Ao finalizar seu discurso, Roberto Rocha prestou homenagem aos companheiros de viagem de Eduardo Campos, que também morreram no acidente, deputado Pedro Valadares, sobrinho do senador Carlos Valadares e assessor da campanha, o assessor de imprensa Carlos Percol, o fotógrafo Alexandre Severo, o cinegrafista Marcelo Lira e os pilotos Geraldo Magela e Marcos Martins.

Diálogo

No momento de crise política e econômica, o governador e ex-senador pelo Distrito Federal Rodrigo Rollemberg (PSB) lamentou a ausência da capacidade de diálogo e articulação de Campos e lembrou a grande qualidade de gestor de Eduardo, com quem trabalhou no Ministério da Ciência e Tecnologia.

O senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE) afirmou que, se vivo estivesse, Eduardo Campos seria uma voz indispensável para o atual momento de crises, dúvidas e incertezas que o Brasil atravessa. “Pretendemos, com a força de seu exemplo, Eduardo, construir o futuro desta Nação. Um futuro onde o filho do rico e o filho do pobre possam estudar na mesma escola pública, que era o que você desejava, que era o que você sonhava!”

Carlos Siqueira, presidente do PSB, lembrou a trajetória de Eduardo, inspirado pelos ideais do avô, Miguel Arraes, também falecido em13 de agosto (de 2005) e afirmou que a personalidade agregadora do ex-governador deve servir de inspiração para que o país resolva os graves problemas que enfrenta.

Chapa presidencial

Bastante aplaudido no plenário, o ex-senador Pedro Simon, do Rio Grande do Sul, fez um discurso lembrando a composição da chapa presidencial de Eduardo Campos e Marina Silva. Ele contou que decidiu ligar para Marina, de quem é amigo, e sugerir a união com Campos logo após a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2013, de negar o registro para o novo partido Rede. Segundo ele, Marina concordou, inspirada na possibilidade de criar uma alternativa política para o país, e a chapa foi formada logo após uma conversa com Eduardo Campos.

Terceira via

O presidente da Fundação João Mangabeira, ex-governador e ex-senador Renato Casagrande (PSB-ES), disse que Eduardo Campos se tornou candidato a presidente para romper com a polarização política no Brasil e viabilizar uma terceira via de solução. Para ele, a obra e a vida de Campos devem ser lembradas como uma referência de “uma nova política que tem de ser feita com ética, com decência, com transparência e com resultado”.

Confira a íntegra do discurso do Senador Roberto Rocha:

Sr. Presidente, senhores e senhoras senadores e senadoras

 

A maior homenagem que o país pode fazer a um de seus filhos é aquilatar o tamanho de sua ausência. Este é o sentido de estarmos reunidos aqui, hoje. Não apenas para prestar o merecido louvor a uma vida que nos inspira, mas o de tentar traduzir o que ainda hoje ela nos instiga.

Não falarei dos muitos feitos de Eduardo Campos como administrador. Esses, o Brasil conhece e reconhece muito bem, tanto que replica em todos os seus quadrantes. O gestor minucioso, o cuidado com o gasto público, o permanente monitoramento das despesas, a transparência como um dever, a ética como um princípio e o diálogo como uma profissão de fé na política. Um parteiro de consensos. Esses são, digamos, os pontos cardeais de sua presença pública.

Quero, na verdade, deixar registrado nos anais desta Casa uma opinião pessoal sobre o ser humano excepcional que tive o privilégio de conhecer. Desejo falar sobre um aspecto que para mim é o que torna a ausência que sentimos do nosso querido Eduardo em uma presença de peso no destino da política nacional.

Começo por destacar não o que ele fez, mas o que ele não fez. Pois a vida das pessoas que transcendem o seu tempo também é construída pela capacidade de negar o óbvio, de se confrontar com a espessura das ideias feitas e com a inércia das expectativas fáceis.

Eduardo foi o herdeiro do mais formidável legado político do pensamento e da prática socialista do país. Seria fácil aproveitar eleitoralmente a herança da linhagem de Miguel Arrais, seu avô. Era o que se esperava dele. Que prosseguisse a obra do avô.

Mas Eduardo fez o mais difícil. Sem abrir mão dos valores, pavimentou um caminho diferenciado, forjado por uma leitura do mundo em sua dinâmica moderna. O mundo conectado por redes de informação, que anseia por novas formas de organização, por ordenamentos mais horizontais, pelo compartilhamento da experiência de viver, pela quebra de paradigmas, pela reinvenção do governo.

Eduardo reinterpretou a política ao formular a máxima, que levou para o seu governo, de que “não se pode mais fazer política como se fazia no século passado”.  E, é claro, ele se referia ao século em que viveu seu avô e mentor político. Ele dizia, com isso, que a verdadeira aprendizagem se dá pela capacidade de mudar junto com o mundo. Não apenas de mudar o mundo, mas de saber mudar, com ele. Sem negar o passado, antes o valorizando e o reconhecendo. Certamente uma lição de humildade que permanece viva.

Eduardo também dizia que “é fundamental que o Brasil tenha coragem de fazer novas escolhas, não é  só mudar um partido ou uma pessoa, mas as prioridades”. Suas palavras ressoam cada dia mais atuais, especialmente hoje quando assistimos o mais amplo divórcio entre a política e a sociedade.

O destino, porém, nos negou a oportunidade de testemunhar como a pregação de Eduardo ecoaria no coração das pessoas, ao longo da campanha eleitoral. Uma retórica diferenciada, um apelo novo, uma ânsia de futuro teria nascido e germinado em muitos corações, não fosse a trapaça do destino.

Tivesse ganho ou não a eleição, Eduardo hoje seria, sem dúvida, a voz mais qualificada para fazer as pontes entre o país que somos e o país que almejamos ser. O seu dom de diálogo, sua capacidade de juntar as pessoas, a coragem de manter a palavra como uma questão de honra, a capacidade de enxergar o novo, lá mesmo onde o antigo teima em persistir. Tudo isso fazia de Eduardo Campos um homem talhado para liderar, para apontar caminhos.

Permitam-me, ao finalizar, dizer algo que para o coração de todos os que conviveram com Eduardo chega a ser banal, de tão verdadeiro. Eduardo deixou a vida, mas não a existência. E a prova de que ele continua existindo é esse diálogo que persistimos mantendo com a inspiração de sua vida.

Eu quero fazer uma homenagem muito especial, também, além do nosso querido Eduardo Campos, aos seus outros companheiros, que com ele tombaram naquele dia 13 de agosto do ano passado. O nosso companheiro, com quem tive o privilégio de ser colega na Câmara Federal, sobrinho do nosso companheiro, amigo e senador Carlos Valadares, o saudoso deputado Pedro Valadares, Carlos Percol, Alexandre Severo, Marcelo Lira, Geraldo Magela e Marcos Martins. Todos têm o nosso respeito e o nosso reconhecimento.

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