Em sua magistral obra Macunaíma, Mario de Andrade conta as desventuras de um anti-herói brasileiro que simboliza o contraexemplo daquilo que um povo em formação deveria evitar, para se tornar grandioso. O personagem reúne, a um só tempo, características do índio, do negro e do branco. Individualista e preguiçoso, Macunaíma faz o que deseja, sem se preocupar com absolutamente nada e ninguém. Vaidoso, tem a habilidade de mentir com a maior facilidade e gosta, acima de tudo, de se entregar aos prazeres carnais, sobretudo, os da luxúria e da gula.

No Maranhão, infelizmente, o contraexemplo do personagem de Macunaíma foi incorporado pelo ex-governador Flávio Dino, que ao longo de quase oito anos à frente do Palácio dos Leões, tentou diminuir a grandiosidade do povo maranhense, fazendo da política um balcão de negócios para aniquilar seus opositores e, assim, atingir seu objetivo ideológico de construir um partido único no estado.

Sem um projeto de desenvolvimento econômico e social para tirar o povo maranhense da miséria, Flávio Dino reuniu, na sua base de apoio, um amplo espectro de siglas partidárias da esquerda à direita, dando azo, em detrimento do bem comum, à prevalência de interesses pessoais que se alastraram para além das fronteiras do estado, por meio do Consórcio Nordeste.

Mas tinha uma democracia no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma democracia que não deixou as intenções do ex-governador prosperarem. Já nas eleições para prefeito, em 2019, o espectro de apoio ao então governador se engalfinhou numa guerra fraticida e, por isso, perdeu as eleições para a pequena, mas unida, oposição que ainda resistia bravamente ao projeto de partido único.

Às vésperas de novas eleições e já sem a caneta de governador, Flávio Dino assiste passivamente ao desmantelo do seu projeto político, ele mesmo contribuindo para isso ao mudar de sigla partidária. Envolvido no escândalo da compra falsa de respiradores durante a pandemia de coronavírus, Dino agora terceiriza a culpa como se nada tivesse a ver com a construção da figura do “Consorcio Nordeste”, instituído para se contrapor politicamente ao governo do Presidente Jair Bolsonaro, mas sem nenhum projeto concreto de enfrentamento ao vírus.

Na literatura, o anti-herói é aquele que se aproxima do vilão, mas diferentemente deste costuma obter aprovação, seja através de seu carisma, seja por meio de seus objetivos, muitas vezes inconfessáveis, mas sempre camuflado sob a bandeira da justiça social, valendo-se da malandragem como sua melhor arma. Sem o apoio dos maranhenses, Flávio Dino está deixando de ser o anti-herói sem nenhum caráter, tal qual o Macunaíma, e se transformando no verdadeiro vilão, como resultado do seu projeto político de dominar as pessoas pelo estômago.

Tenho a convicção de que o Maranhão somente superará o grave quadro de miséria do seu povo quando, no Palácio dos Leões, estiver um governante que reúna apoios políticos em torno de um projeto de desenvolvimento econômico e social, capaz de construir a sinergia necessária para fortalecer projetos como o da ZEMA (Zona de Exportação do Maranhão) e dos Portos Secos, a fim de desconcentrar a riqueza do estado. Um governante que se preocupe em alavancar a infraestrutura e atrair investimentos, de forma a gerar emprego, renda e qualidade de vida para a população, sobretudo, a mais necessitada.